Mel

A dificuldade em transmitir aos nossos cães aquilo que gostamos e não gostamos, o comportamento que esperamos deles e os comportamentos que não queremos que tenham, levam muitas vezes a que se confunda os comportamentos inadequados com mitos de dominância. Lembro-me da Mel, uma Pastora Australiana que estava a dar com os tutores em doidos, por estar constantemente a fazer asneiras. Até parecia que fazia de propósito, sempre que os tutores se sentavam, as traquinices começavam, sempre que íam sair de casa, haviam disparates a acontecer. Desde correr à volta da mesa, a ir buscar peças de roupa, chinelos, sapatos, panos da cozinha, tudo servia para colocar os tutores a correr atrás dela! A Mel tinha actividade física, ía para um parque correr, a tutora até estava com ela imenso tempo na rua, onde lhe ía atirando bolas para ela ir buscar enquanto falava ao telemóvel e colocava a conversa em dia. Mas por muito que fizessem, quando chegavam a casa, voltavam os disparates. Conheci esta família desesperada, sem saber o que fazer! Sentiam que a Mel os desafiava, não os respeitava e as velhas crenças da dominância começavam a surgir. Muitas vezes, além de ajudar os tutores a melhorar a comunicação com os seus cães, também precisamos de os fazer entender que todos fazemos o melhor que conseguimos dentro dos conhecimentos que temos. E aqui o que faltava aos tutores era perceberem que a energia e a necessidade de actividade mental desta raça, junto com o apego aos tutores e à necessidade de ter a atenção da família, levava a Mel a querer a atenção dos tutores a qualquer preço. Mesmo que a atenção que lhe davam nesse momento fosse por estarem zangados, sempre era melhor que ser ignorada. A Mel, na realidade tinha uma cabeça pouco ocupada, a solução que arranjou para ocupar a mente foi conseguir formas de ter a atenção dos tutores. E que sucesso teve! Penso que na mente dela o seu sucesso só não era perfeito porque percebia a atitude pouco amistosa dos tutores, mas do que ela sabia, do que conhecia, essa era a forma correta de lhes pedir para lhe darem atenção… Como já perceberam, assim que os tutores perceberam o que se passava e depois de termos estabelecido algumas formas de ocupar a mente da Mel, rapidamente passamos a ter uma casa feliz. A Mel continua a adorar ir para a rua e correr atrás da bola, mas também gosta de exercícios de obediência, de acender e apagar as luzes lá de casa a pedido dos tutores, de fazer sentas, deitas, bears, pretties e afins enquanto a tutora está sentada no sofá com o clicker e as recompensas na mão, adora ir buscar os chinelos à tutora e de se entreter com os jogos interactivos a cada refeição. Nesta situação como em tantas outras, a comunicação não estava a fluir e a tensão estava a aumentar. Felizmente, tudo correu pelo melhor.

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